ANTES QUE SEJA TARDE
Antes que seja tarde e o tempo me fuja pelos poros, deixa-me dizer-te dos sonhos que me alucinam e a todo o momento me envolvem, numa ténue nuvem translúcida, teimando em fazer-me vogar, transportando-me para distâncias que, afinal, estão enraizadas dentro de mim.
Deixa-me fazer-te meu fiel depositário e assim transferir a minha inquietação e dor para ti. Tenho de as transmitir a alguém… Podem perder-se no tempo e há toda a urgência em “gritá-las”, para que não sejam esquecidas.
Quero falar-te daquele tempo que nos roubaram, dos dias amortalhados precisamente quando o sol brilhava no seu apogeu.
Pelas tardinhas, eu ia espreitar a bela gajajeira que me esperava todos os dias a despontar sobre o telhado vizinho à nossa casa; falávamos as duas e os meus olhos brilhavam dourados, hipnotizados pelos seus frutos amarelinhos; tanto nos amámos que lhe fiz um poema, um dia, era inocente e aquilo era segredo nosso. Penso que ninguém mais a terá olhado como eu. Eu parti e ela deverá ter tombado de velhinha.
Durante muito tempo, naquele tempo em que os dias não se contavam, – eles eram sempre curtos e fugidios –, eu deixava-me ficar à varanda da casa a olhar a vaidosa acácia rubra que enfeitava a Rua Serpa Pinto… Quando chovia e o pó do chão se levantava numa nuvem breve, a linda acácia virava um palco de dançarinos. Eram as jingunas que rompiam o chão e vinham bailar, até caírem, à volta do candeeiro da rua; umas repousavam nos ramos rubros, outras eram apanhadas por miúdos que apareciam em bandos correndo de todos os lados e as comiam, por entre gritos de alegria e gozo. Então o ar enchia-se de um odor forte a terra molhada, uma terra abençoada antes do nascer dos tempos…
Era um tempo mágico. Aos domingos as famílias abalavam para fora da cidade, rumo às Quedas do Duque de Bragança e ali ficavam em silêncio, por algum tempo, olhando o incrível que era a natureza em todo o seu esplendor; o arco-íris bailava sobre nós e toda a gente jurava ver imagens que se alternavam por entre a neblina constante e eterna da chuva miudinha trazida pela força das águas que saltavam, lá de cima, para o abismo. Eu sentava-me na pedra grande, cá em baixo, sob a árvore linda que enfeitava aquele lugar; hoje, vejo em muitos livros a mesma árvore, solitária, inclinada sobre a pedra e só… Como eu.
Havia domingos em que, depois da missa na Igreja da Maxinde, cheios de paz, após escutar o padre Luís Maria ou o doce padre José Inácio, partíamos para a Fazenda dos Italianos. A Yolanda recebia-nos de braços abertos e corria a fazer uma enorme cafeteira de café porque, momentos depois, chegavam mais amigos; nós ficávamos na cavaqueira e as crianças corriam para as pocilgas ou para os estábulos, descobrindo os segredos da vida dos animais; pela tardinha apanhávamos mangas das mangueiras descomunais, sentinelas e testemunhas de tantos dias felizes e, por fim, espectadoras da imensa tragédia que se iria abater naquele lugar.
E o Gaiato?... A Casa do Gaiato, à saída da cidade, era um fascínio para as crianças. Levávamos o lanche e fazíamos ali um pic-nic, onde não faltava a maionese cor-de-rosa a enfeitar as sanduíches de fiambre e queijo; o “Pluto” atravessava a lagoa para nos apanhar no outro lado e depois espargia-nos com o abanar do corpo molhado e nós corríamos e ele saltava feliz.
A cidade crescia e todos nós nos envaidecíamos dela; havia corridas de automóveis onde não faltava a presença do Emílio Marta e do António Peixinho, os quais faziam balançar os brios do Tino Pereira, malangino de gema a puxar forte pelo seu “Capri”; toda a cidade corria a pendurar-se nos prédios da avenida da República à espera de os ver aparecer na curva do Rádio Clube de Malange. Era dia de festa e muita agitação.
Agitação, também, era a palavra de ordem nos dias de Carnaval em que as carrinhas passavam cheias de garotos, com sacos de fuba e pelo ar se viam nuvens de farinha e se escutava “ Monangabé”!!!
E a “Tifa?
– Corram, vem aí a “Tifa”! – Dizia a criançada.
A “Tifa” era uma carrinha que trazia um aparelho destinado a desinfectar as ruas da cidade e, periodicamente, passava por áreas determinadas espargindo o ar com insecticida a fim de matar o mosquito “anofélis” portador do paludismo. No ar ficava o cheiro forte do insecticida; dentro de casa o segredo de quem tinha fugido mais depressa.
Não havia televisão, coisa maravilhosa essa ausência!
As senhoras da cidade juntavam-se e jogavam muito à canasta, organizavam-se passeios e bailes no Clube Atlético; criavam-se os filhos, ensinando-os a ser tementes a Deus e a amar o próximo. E comentava-se o aparecimento de uns cabeludos que se passeavam, à noite, em jipes descapotáveis, lançando gargalhadas à noite. Havia que proteger as jovens de tal maralha.
Noite dentro, muitas vezes, partíamos para Cambondo, a 20 km do centro da cidade, e esperávamos que o Sr. Justo acabasse de tirar o pão quentinho do forno da padaria, e já munidos de pacotes de manteiga e chouriços fazíamos uma festa, às tantas da madrugada.
África, a nossa África…
Depois veio o Kilombo. As suas árvores gigantes de raízes adventícias, onde eu me pendurava; as “patas de elefante”, as cachoeiras, os riachos, as flores dos cactos, o cheiro, o cheiro, o cheiro… toda eu era inocência, numa entrega sem limites, prenha de paz, renascida, descoberta…
O regresso: outra festa.
Comprávamos pelo caminho cachos de bananas, e gaiolas com celestinhas e viúvas. Até apanhámos uma cobra, uma vez, que foi esfolada à beira de um riacho, para ficarmos com a pele. Ficámos com a pele e com o cheiro da sua gordura, muitos dias.
A nossa “Datsun” azul era um presente de Deus: portava-se bem e corria veloz, para onde eu queria; na parte de trás, baixados os bancos traseiros, era colocado um colchão e as crianças iam ali, felizes, fazendo concursos, contando adivinhas e cantando.
Depois, quando podia, escrevia, escrevia muito.
Lembrava o meu tempo de menina, em Luanda, na aprendizagem da vida, na descoberta primeira de África aos meus pés: a cor da pele, a língua, os cheiros o Rio Bengo, os imbondeiros, as múcuas, as papaias, os maboques, as pitangas, as gajajas… Meu Deus, tanta coisa maravilhosa e eu tão pequenina!
A moringa de apanhar a água que caía, pingo a pingo, do filtro de pedra de granito assente num banco de madeira, alto, de centro aberto.
O Domingos, o meu Domingos que me cantava, cantava…
21 dá gosto do 47
Vai aver o Mário ué
Vai a pa Porto Amboimmm
Vai dari notícia mamã
Da Maria Berta
Eli faiz viagem jutamente cu passarinho ué.
Ele que me ensinava, todos os dias, Kimbundo.
Kidimuene! Jura mesmo, sangue de pacaça!
A construção do Cinema Tropical onde vi o primeiro filme do Cantiflas,
O primeiro namorado, chamado Virgílio e que mandei embora por me pedir um beijo. Tinha 14 anos.
Era o tempo em que eu vinha da escola, direita ao Bairro das Ingombotas, ali pela Vasco da Gama, bata branca e pasta de cabedal luzidia de tão bem encerada; olhava de revés os meninos de cabelo esticado e calções caqui que me diziam graças e elogiavam os meus olhos azuis. Os meus cabelos eram longos e fartos tal como a minha alma, sedenta, sempre, não sabia bem de quê.
…………..///……………
Bebi água do Bengo. A causa da minha sede, da minha chaga aberta.
Que não fecha… não fecha…
Alastra com o tempo, teima em queimar-me por dentro, como um feitiço adormecido, lançado pelos ares. Vindo, quem sabe, sobre as águas, pegado a caroços de dém-dém, balançando… balançando… sabendo-me à espera, cansada, querendo partir…
Mas é urgente que se saiba daquele tempo, daquela magia, vivência única. Tudo se vai perder no tempo que nos rodeia, cheio de banalidades, onde a matéria, o gozo imediato e o sexo imperam. Chegará o dia em que duvidarão da história e dos testemunhos; rirão da nossa inocência da nossa paz, dos nossos amores abertos e da nossa alegria.
Resta-me a certeza de que a minha última viagem será para o Sul. É inevitável, é fatal e está escrito na terra vermelha que pisei. Tomo como testemunhas do meu querer as gajajas e as acácias que me ensinaram, em menina, a descobrir a diferença dos cheiros e das cores.
Se me buscarem, à tardinha,”na hora dos mágicos cansaços”, segundo Bela Espanca, não me encontrarão, estarei longe, terei partido para lá do Equador, para África
Isa Pontes
1.8.2008
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