JINGUNAS
Daniel
Olha, hoje o dia teve contornos invulgares, mágicos. Por isso corro a
contar-te o que aconteceu.
As jingunas voltaram outra vez, hoje ao fim do dia, quando as rôlas
deixaram de se lamentar e todos os outros pássaros regressaram aos ninhos;
muitos entre a palmeira gigante do jardim e outros dentro da romanzeira
frondoza e fresca. Já ontem, à mesma hora me tinham visitado. Andam loucas as jingunas, de imensas asas
transparentes, e muitas vêm bater-me no rosto ou pousar-me nos braços. Tem
chovido muito e a terra barrenta parece pápa e é assim que elas aparecem.
E também é assim que eu atravesso todo este continente em direção ao
norte, para Malanje. Depois de horas de trovoada e chuva intensa eu via
formar-se na minha rua - a velhinha Rua Serpa Pinto, já no comecinho da Maxinde
-, rasgos de terra vermelha, como se fossem veias de um corpo misteriosamente
presente e envolvente... África... Tu sabes...
Passadas horas, as jingunas chegavam e voavam... voavam... tontas, à
volta dos candeeiros da rua. Então, a criançada negra saltava de mãos abertas e
comiam-nas ali, assim mesmo, por entre gritos de gozo, como se apanhassem um
maná caido do Céu.
Não adivinhava, não podia, que todo aquele encantamento, toda aquela
magia, acontecendo num pedaço da minha rua, haveria de servir, tantos anos
depois, como alimento, também, da minha alma solitária aqui ao sul, numa África
que já não conheço, que foi desventrada de todos os seus mistérios e que de
jingunas já não entende nada...
Vê lá tu o poder dos pequeninos insetos! Foram eles que vieram animar
o meu dia carregado de desânimo,
angústia e saudade, iluminando a minha mente, buscando lá bem no tempo os dias
férteis de uma África que foi minha e
que me fez assim numa mulher que, estranhamente se alimenta de jingunas.
Um beijo
RAQUEL
África do Sul, 9.2.2012 Isa
Pontes