quinta-feira, 21 de março de 2013



ADORAÇÃO

Quando tu chegas
Atiro-me louca em teus braços.
À minha volta tudo é ebulição,
Desintegra-se o ar,
O verde, o espaço,
Tudo vibra dentro em mim.
As coisas não têm nome,
Esqueço até quem sou,
Tu estás ali!...
Fico criança toda entregue ao teu sorriso.
Ao meu redor tudo é loiro,
Imenso, lindo,
Teus olhos, um espelho de bonança.
E tu... estás ali!
Tuas mãos elevam-me em tal posse,
Num rodopiar de ave entontecida
Que eu chego a acreditar
Seres todo meu
E eu... toda a tua vida.
Migalhas... sonhos...
Ao cair da tarde,
Quando ávida olho para mim
E me vejo só, de mãos vazias,
Sem norte
Sem vida
E sem ti!...

Isa Pontes 

terça-feira, 5 de março de 2013


                                                                                                   JINGUNAS

Daniel

Olha, hoje o dia teve contornos invulgares, mágicos. Por isso corro a contar-te o que aconteceu.
As jingunas voltaram outra vez, hoje ao fim do dia, quando as rôlas deixaram de se lamentar e todos os outros pássaros regressaram aos ninhos; muitos entre a palmeira gigante do jardim e outros dentro da romanzeira frondoza e fresca. Já ontem, à mesma hora me tinham visitado.  Andam loucas as jingunas, de imensas asas transparentes, e muitas vêm bater-me no rosto ou pousar-me nos braços. Tem chovido muito e a terra barrenta parece pápa e é assim que elas aparecem.
E também é assim que eu atravesso todo este continente em direção ao norte, para Malanje. Depois de horas de trovoada e chuva intensa eu via formar-se na minha rua - a velhinha Rua Serpa Pinto, já no comecinho da Maxinde -, rasgos de terra vermelha, como se fossem veias de um corpo misteriosamente presente e envolvente... África... Tu sabes...
Passadas horas, as jingunas chegavam e voavam... voavam... tontas, à volta dos candeeiros da rua. Então, a criançada negra saltava de mãos abertas e comiam-nas ali, assim mesmo, por entre gritos de gozo, como se apanhassem um maná caido do Céu.
Não adivinhava, não podia, que todo aquele encantamento, toda aquela magia, acontecendo num pedaço da minha rua, haveria de servir, tantos anos depois, como alimento, também, da minha alma solitária aqui ao sul, numa África que já não conheço, que foi desventrada de todos os seus mistérios e que de jingunas já não entende nada...
Vê lá tu o poder dos pequeninos insetos! Foram eles que vieram animar o meu dia carregado de  desânimo, angústia e saudade, iluminando a minha mente, buscando lá bem no tempo os dias férteis  de uma África que foi minha e que me fez assim numa mulher que, estranhamente se alimenta de jingunas.
Um beijo
RAQUEL
África do Sul, 9.2.2012                                                Isa Pontes


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013



                                                       
DISFARCE

Nem Morfeu
me valeu.
Toda a noite tu
e eu...
E por entre gemidos e gritos de
bocas loucas
passavam anjos
disfarçados de livros,
folhas soltas...


Isa Pontes

AS TUAS MÃOS


As tuas mãos... as tuas mãos amor,
talhadas em cetins do Oriente,
mãos de um Deus perdido entre a gente
criadas p´ra mim por Deus Nosso Senhor

Fazem lembrar-me as pombas no poente
serenas, adormecidas ao sol pôr,
cinzel parado de todo o esplendor
da criação, assim, serenamente.

E as tuas mãos que ergueram um altar
de um amor tão antigo, tão velhinho
também me enlouquecem...ansiedade...

Pego nelas e beijo-as devagar,
já não são tuas, ficaste pobrezinho,
são minhas por toda a eternidade!

                                                                      
           Isa Pontes


E AGORA?

E agora amor…
Que fazer com este enlevo?
Que fazer quando sinto a tua sombra
Projectada junto à porta,
O teu cheiro em cada livro,
Em cada verso que faço, poema?
Que fazer?...
Se tudo me fala em ti
Se ainda te vejo aqui
Sob a copa da oliveira.
Que hei-de fazer amor?
Se a alma me incendeia
Ao dizer teu nome
Se as mãos se agitam
Amalucadas
Que fazer das madrugadas
Se ainda sinto o teu abraço.
Que fazer a tanto amor?
Que fazer a dor tamanha?
E agora…
O que é que eu faço?

          Isa Pontes

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


                                     M A G I A

Dá-me a tua mão
vamos subir
ao tal cabeço encontrado
Dizem-me haver ali
um Mago
só visto por crianças
e amantes..
Que bom!...
Seremos como dantes,
simples,
procurando flores
por entre o mato.
Depois,
na transparência do regato
bebendo a seiva milagrosa,
quem sabe...
o lenho pesado e duro,
miraculosamente se transforme
em rosa.


                              Isa Pontes



    



  APENAS AS PALAVRAS

Quando tu chegares
já as violetas terão partido,
ressequidas,
por entre as pedras do jardim…
De Abril nada restará,
nem a frescura
nem o grito da cor nacarada
em cada flor.
O verde a enfeitar petúnias
cairá inerte, seco, abandonado.
Tu, meu amor,
hás-de procurar
néctar em meus lábios
e acácias em labareda no meu ventre
que foi outrora o teu chão
o teu império sitiado.
Será tarde…
Será tarde…
De mim restará apenas a efígie do que eu era
guardada em ti
e dizias ninguém adivinhar.
De mim,
apenas  as palavras
que alteiam,
ainda,
os fins de tarde na Ilha
ajoelhados procurando o Sol.
E o azul triste dos meus olhos
há-de confundir-te
ao dizer
É tão tarde…
É tão tarde… 

Isa Pontes