terça-feira, 5 de março de 2013


                                                                                                   JINGUNAS

Daniel

Olha, hoje o dia teve contornos invulgares, mágicos. Por isso corro a contar-te o que aconteceu.
As jingunas voltaram outra vez, hoje ao fim do dia, quando as rôlas deixaram de se lamentar e todos os outros pássaros regressaram aos ninhos; muitos entre a palmeira gigante do jardim e outros dentro da romanzeira frondoza e fresca. Já ontem, à mesma hora me tinham visitado.  Andam loucas as jingunas, de imensas asas transparentes, e muitas vêm bater-me no rosto ou pousar-me nos braços. Tem chovido muito e a terra barrenta parece pápa e é assim que elas aparecem.
E também é assim que eu atravesso todo este continente em direção ao norte, para Malanje. Depois de horas de trovoada e chuva intensa eu via formar-se na minha rua - a velhinha Rua Serpa Pinto, já no comecinho da Maxinde -, rasgos de terra vermelha, como se fossem veias de um corpo misteriosamente presente e envolvente... África... Tu sabes...
Passadas horas, as jingunas chegavam e voavam... voavam... tontas, à volta dos candeeiros da rua. Então, a criançada negra saltava de mãos abertas e comiam-nas ali, assim mesmo, por entre gritos de gozo, como se apanhassem um maná caido do Céu.
Não adivinhava, não podia, que todo aquele encantamento, toda aquela magia, acontecendo num pedaço da minha rua, haveria de servir, tantos anos depois, como alimento, também, da minha alma solitária aqui ao sul, numa África que já não conheço, que foi desventrada de todos os seus mistérios e que de jingunas já não entende nada...
Vê lá tu o poder dos pequeninos insetos! Foram eles que vieram animar o meu dia carregado de  desânimo, angústia e saudade, iluminando a minha mente, buscando lá bem no tempo os dias férteis  de uma África que foi minha e que me fez assim numa mulher que, estranhamente se alimenta de jingunas.
Um beijo
RAQUEL
África do Sul, 9.2.2012                                                Isa Pontes


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