S E B A S T I A N A
O corredor alongava-se a meus olhos, branco, imenso. De cada lado, abriam-se arcadas com bancadas laterais, sustentadas por pequenas colunas, tipicamente coloniais. Tudo de uma brancura gritante. Para lá das arcadas, muito verde, onde predominavam as “patas de elefante”, no canteiro principal.
Uh!...
- Chega-te um pouco para o centro... assim.
A foto da Kodak havia eternizado as lindas “patas de elefante” e também a mim, no centro delas, na frescura dos meus 13 anos. As “patas de elefante”, grandes folhas verdes, tenras. Eu, pequenina, verde, tenra. O tempo transportou-me ali...
Continuei a caminhar, encantada com o branco das paredes e o comprimento do corredor. Começava logo na entrada do Hospital Maria Pia, em linha recta e ia até ao fim do edifício, ladeado por diversos pavilhões e jardins intercalados. Voltei a ver-me ali...
– Olha, vem aí a mascote!
Era eu, sentada no carrinho de rodas, mãos em grande movimento, vendo até que velocidade podia andar. O corredor era jeitoso para as minhas experiências de catraia e assim esquecia-me da tuberculose que minava o meu frágil corpo.
Por essa altura, o presidente da República, Craveiro Lopes, visitava Angola e, na inauguração de novos pavilhões hospitalares, deparou comigo e disse-me: – Tão linda! Que fazes aqui minha menina de canudinhos tão fofos? Envergonhada, faces rubras, enfiei-me um pouco mais lençóis dentro e nada respondi.
Porém, agora tudo era diferente. Do passado, apenas as paredes alvas e o mesmo chão, encerado de vermelho, à moda colonial. Os jardins já não gritavam tanto verde; aqui e ali, folhas secas e um pouco de capim cercando as “patas de elefante”. Nem eu era mais verde. Havia perdido o viço e a frescura dos 13 anos, dera lugar à madureza dos 30. Sem viço e sem canudos. Apenas os mesmos olhos, imensos, de quem tudo abarca, como se foram infinitos braços, infinitas almas, unindo mundos, espaços, lugares, numa amalucada fome de eternidade, janelas...
Ali caminhava eu... Havia momentos, a minha alma tinha-se dobrado. Com ternura e comoção, conduzira, numa cadeira de rodas, pelo mesmo corredor onde tanta vez ele me guiara, a mim, o meu médico, Dr. Barros do Amaral. Fora como um pai para mim, agora preparava-se para a grande viagem...
- Amiga! Amiga! Amiga!
Nem tive tempo de respirar. Um reboliço todo negro, pequenino, de forte carapinha, arrancou-me das minhas recordações e entes que eu dissesse alguma palavra, já estava como lapa, grudada na minha cintura, pernas engalfinhadas, apertadas ao meu corpo. Eu era sua propriedade.
- Amiga...
Os olhitos eram enormes, a expressão, uma miscelânea de inocência e interrogações e eu, o seu Paraíso. Todos os dias eu entrava ali na pediatria. Todos os dias, à mesma hora, ela me aguardava, espreitando, por entre as grades de ferro, da cama, de tinta descascada, de um branco duvidoso. O seu corpito era uma coisa disforme; as suas pernas canejas; os braços desengonçados; no peito, uma corcunda feia, parecendo que a face estava no sítio errado; a cabeça enorme; a boca de orelha a orelha; o nariz... fazia-me pensar que Deus não estaria presente, na hora da sua concepção. Mas... no meio de todo aquele horror, a meiguice dos seus olhitos! Aquela não tinha dimensões, era infinita e marcava-me.
– Sebastiana, minha querida... Hoje trago mais uma bonequinha para ti. Olha que linda!
Aí, todas as crianças me rodeavam. Umas, não tinham pés; outras, a cabeça atada; a uma faltava um braço; a outra um olho. De comum apenas a inocência e o medo, de quem não sabe o porquê nem o quando. A guerra havia começado.
Por dentro, eu gritava, gritava. Era o meu último dia. Não voltaria a olhar o verde das grandes folhas e o imenso corredor ia passar a fazer parte das minhas memórias, tal como as acácias o buganvílias rubras, os machimbombos, a água do Bengo, o Mussulo, o funge, os imbondeiros... Oh, meu Deus!... Os meninos da pediatria e a minha Sebastiana, só os iria encontrar no silêncio do meu coração.
- Para os meninos do hospital, mamã.
Ali estava eu, distribuindo pelas crianças, os brinquedos que meus filhos me haviam dado, momentos antes, em casa. Também eles em despedida das coisas, da terra e das gentes. Vagueavam pela casa em visível desequilíbrio, sabendo que perdiam espaços verdes e o cheiro daquele ar todo liberdade.
Sebastiana tinha-se calado e encostara a sua cabeça ao meu peito, silenciosa. Os pais tinham-se perdido, entre bazucas e metralha, lá para os lados do Catambor. Mansamente, como quem desfolha uma rosa, desfiz o nosso abraço. Era chegado o momento de olhar, uma vez mais, aqueles anjos ali perdidos. Uma vez mais...
Disse adeus à negrinha Sebastiana e ela notou que algo estava mal. Meus olhos atraiçoaram-me.
- Amiga!... - disse ela baixinho.
Nunca lhe disse o meu nome, nem à Sebastiana nem às outras crianças.
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Bati à porta da minha casa e os sininhos, de metal amarelo, tilintaram, anunciando a minha chegada. Cansada, alisei distraidamente a onda caída sobre a testa, no mesmo lugar onde há tanto tempo se empertigavam lindos canudos. Pensei: – Será que umas madeixas esconderiam estes cabelos brancos?
– Vóvó, vóvó! Eu tenho uma bonequinha, vamos por um nome a ela, vamos vóvó?
– Sim Natacha, vamos pôr um nome à menina.
– Oh... que nome vóvó?
– Nome... Olhei os pequeninos olhos da minha neta, todos inocência, a lembrarem-me outros tempos, outros lugares, outros olhos.
– Vóvó!... E a Natacha olhava para mim, tentando adivinhar o meu silêncio.
– Sebastiana.
– Sebastiana, vóvó! Tá bem, tá bem. Eu tenho uma boneca Sebastiana! Eu tenho uma boneca Sebastiana! Eu tenho uma boneca Sebastiana!
E a sua vozita de trapos perdeu-se pelos corredores da casa, pelos corredores da vida, fazendo eco no sacrário do meu coração.
Isa Pontes
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