sexta-feira, 25 de maio de 2012

                    COISAS



Hoje dormi com António Lobo Antunes. E acordei com Rossini –um pardal a saltitar, na varanda do meu quarto em delírios, a lembrar-me as Bodas de Fígaro – deveriam  ser, pelo canto, 8 horas da manhã.

E lá estava ele, a olhar para mim, na capa do livro, olho franzido, cabelo branco desalinhado e os sinais ao lado direito da cara, qual marca registada. (eu sou aquele que gosta de isolamento para ver melhor e que, vez por outra, volta ao passado- sempre presente- como forma de alimento, minguado que ando de colo, farto que ando de esgares estudados).

Saltei da cama e telefonei à Maria João, a saber da Lála que ela ontem encontrou, por entre os carros, no Parque de estacionamento do Gaia Shoping – alguém a deixou ali, mais outra cachorrinha e também a progenitora que andava aflita por entre os carros, a tentar levar os filhotes sem saber para onde.

      – Sabes uma coisa querida?
(adoro pregar partidas e assim vingo-me das partidas que a vida me arranja e me fazem chorar de raiva e, como estas me fazem rir, lá me vou equilibrando)  Esta noite dormi com um homem!

      – É pá Mamã!?

      – É... o António Lobo Antunes.

      – Olha, isso é o que se chama uma noite de alto nível mas não consegues ganhar-me: eu dormi com o Luís Sepúlveda de um lado e com o meu marido do outro lado.


E entre o Bairro de Benfica de cá e o Kiler, todo dado ao sentimento de lá, assim foi decorrendo a nossa conversa, sem esquecer a nova personagem que virá habitar a nossa casa, em Friande, na falda de um monte, a que dão o nome de Monte da Paixão, quem sabe, enamorado das montanhas do Gerês aqui, em frente.

Desliguei o telefone e olhei em redor...

A mamã sorri-me, a dormir, sob uma camélia branca, posta, ontem, numa jarra de cristal. O Jinho que também partiu, olha-me da moldura, esperando-me, num silêncio aparente, enfeitado pelos tons trazidos do Vale, amarelos e castanhos e pela inebriante cadência dos ventos a transportar, consigo, a meiguice dos tordos, pardais e canários que dizem: – Estou aqui.

Continuei a percorrer a casa e o meu olhar a fugir lá para fora...

Salto as montanhas e parto para o Sul: vejo-me jovem, bermudas pretas, com ela ao colo, a Maria João, pequenina...frente à máquina fotográfica, eu de bermudas, ela de fralda...a mesma que agora me falava de Luís Sepúlveda

E tu que ainda não estavas na foto, em lado algum à minha espera, de Kodak em riste, junto à cintura, olhando o vidro quadrado

       -Ri-te! Olha para aqui e vira a menina.

         E eu ri-me

Meio distraída, pensava, com a Maria João ao colo, de fralda...Quem seria um tal António Lobo Antunes de quem o diário “Angola Norte” ontem tanto falava? Dizia ter sido visto na Baixa de Cassange, perto de Kibangue Agrícola. Também referia que é escritor...

                 


              Isa Pontes



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