DESCOBRINDO
Peguei
no livro “ Chão de Kanâmbua “ e parei. Já ia a bem mais de metade do volume,
mas era imperioso perceber o que se estava a passar na minha mente; saber a
causa de tanta interrogação, justificar tanta agonia.
Não
era a primeira vez que me acontecia ficar assim, um pouco tonta, na procura de
causas para tal efeito. Por vezes sentia sensações semelhantes ao passar sob as
minhas laranjeiras em flor, ou perto do jasmim frente à entrada da casa, todo
ele um esplendor de brancura. Ficava como que levitando num êxtase interno, que
disfarçava, na esperança de ser só meu e não parecer tonteira quando houvesse
gente por perto. Até as glicínias que rebentaram agora, num grito de lilás, por
esses muros fora, vieram transtornar-me os olhos e a alma. Quase me apetece
dizer: o desassossego de Março.
E,
por ser Março, a inquietação aumentou e fez-me parar a meio do livro.
Penso
que, finalmente, descobri: são os livros!
Pequenina,
agarrava-me aos livros da Condessa de Ségur – “A Pousada do Anjo da Guarda” e
aos de Jules de Peyrrany – “Dois Corações Generosos” e este último até me
tocava mais, já que uma das personagens principais tinha o meu nome.
Depois,
jovem, procurava os livros da colecção azul e li “John, o Chofer Russo“ e “A
Cabana do Pai Tomás“ de Harriet B. Stowe. Aí encarnava as personagens que iam
aparecendo, imaginando fazer, finalmente, justiça, defendendo os humilhados.
Mais
tarde, mulher feita, abracei “Teresa Batista Cansada de Guerra“ e “Dona Flor e
Seus Dois Maridos”, deixando-me embalar e viver a sensualidade daquelas
mulheres tão bem imaginadas pelo baiano Jorge Amado, abençoado pelo Senhor do
Bonfim e por todos os Orixás.
Naveguei,
e muito, pela vida de José Mauro de Vasconcelos, de quem tenho todos os livros,
e aprendi com ele a ver anjos passarem junto a mim em momentos muito especiais,
bem como a arte de falar com lagartixas.
Há
poucos anos enveredei por outras vidas, na fome de saber, beber, mais. Assim,
parti com Kapuscinski nas suas “Andanças com Heródoto”, o que foi para mim, como
já alguém disse, um regalo para a alma.
Depois
de acompanhar a sábia espera de Garcia Marques em “O amor nos tempos de cólera”,
ainda parei por Ortega y Gasset para tentar descobrir se a circunstância que me
tem rodeado ao longo dos anos me tem formado e moldado na mulher que sou hoje.
Foi
quando resolvi partir em grandes viagens. Assim, acompanhei a fantástica
Cristina Morató nas suas “Memórias de África” e fiquei a conhecer a vivência
africana nos finais do séc. XIX e princípio do séc. XX; tomei gosto pelo prazer
da aventura que envolveu as vidas de Karen Blixen, Delia Akeley, Livingstone e
Sir Francis Burton, todos seres únicos.
A
seguir, e para tratar os meus desvarios, entreguei-me a Eça, o meu Eça de
Queiroz. Subi, lentamente, toda aquela serra até chegar a Tormes, deliciando-me
com o mais belo livro escrito na nossa língua: “A Cidade e as Serras”. Aí,
aprendi o segredo da transformação de um homem quando tem a sorte de possuir um
bocado de terra, de chão. Talvez tenha sido nesta viagem que comecei a procurar
os cheiros que chegam com a Primavera.
Agora,
ando em novos achados. Parto quase sempre para África, lá é o meu refúgio. Pego
n’ “A Verdadeira Estória de Domingos Xavier“ de Luandino; n’ “Os Predadores” de Pepetela; n’ “A Estação
das Chuvas“ de Águalusa, e devoro as
páginas de Julião Quintinha, notável jornalista português que veio mostrar-nos
África, quando em Portugal esse era um tema para aventureiros.
Neste
momento olho a capa de “Chão de Kanâmbua“, de Tomás Lima Coelho; sentada sob a
oliveira velhinha sinto-me a viajar naquele comboio, abarcando todo o espaço de
capim rasteiro onde, aqui e ali, surgem um imbondeiro ou catedrais de salalé.
Parece-me que volto à minha terra… ao meu chão… Malanje.
Talvez
tenha descoberto, talvez… Toda esta emoção que me envolve ao entrar nos livros
deverá ser… será?... o meu crescimento como mulher, como pessoa; sou eu a
formar-me ao longo dos anos; a fazer descobertas nos meus encontros; sou eu a aprender
com quem já viveu muito; sou eu a despir disfarces preferindo ser transparente;
a constatar o peso do poder, mas também a força inabalável da verdade; sou eu,
sempre, a querer chegar mais além.
E
porque tocam as ave-marias numa capelinha perdida lá ao longe, entre as faldas
das montanhas, desperto.
Feita
a descoberta que me apazigua o corpo e me lava a alma, volto ao comboio que vai
a caminho de Malanje.
Isa
Pontes
Friande - 23.4.2012
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